Loyola Brandão chama os pais que pedem o recolhimento de seu livro de "burros".

Ele se refere a um grupo de pais em Jundiaí que pediu ao Ministério Público o recolhimento do livro “Cem melhores contos brasileiros do século”, distribuído em escolas da rede pública. Eles alegam que o conto “Obscenidades para uma dona de casa”, escrito por Brandão, é inapropriado para alunos do ensino médio.
“Nesse momento eu acesso a internet e vejo jovens mandando e-mails com imagens nuas para os amigos. Vejo mensagens no Twitter, de jovem para jovem, muito obscenas. Se você pegar a série ‘Crepúsculo’, tão endeusada, tem muita sacanagem”, diz o escritor. “Eu me pergunto, onde estão esses pais que não conversam com os filhos, que não perguntam o que eles acham de sexo, de erotismo, de palavrão. Que mentalidade é essa, 1500? Em 2010 isso não faz sentido”.
Segundo Gilberto Aparecido da Rosa, pai de duas adolescentes gêmeas de 17 anos, a linguagem do conto “é muito chula para os padrões acadêmicos”. “Acho que os jovens não mereceriam receber uma linguagem dessas dentro das escolas”, afirma.
Brandão diz que esse tipo de abordagem em relação ao livro não é novidade. “Já aconteceu em Jundiaí, já aconteceu em Piracicaba, já aconteceu em Avaré, já aconteceu em Santos”, enumera. “É um livro distribuído para a rede estadual, foi a Secretaria de Educação que escolheu”.
O conto, que foi publicado pela primeira vez em 1983 na revista “Ele & Ela”, narra a história de uma mulher que recebe cartas de um desconhecido, e é baseado em uma história real, que teria acontecido com uma vizinha do escritor.
Sem obscenidades
Para ele, o texto, que já foi publicado em dez línguas e virou vídeo e monólogo teatral, não é obsceno. “Ele é erótico, é sensual, mas é poético. Já foi tema até de vestibular! Não existe obscenidade na arte, a não ser quando ela é pornográfica, e isso é a última coisa que o conto é”, afirma.
Irônico, Brandão agradece aos pais “por terem chamado a atenção para uma obra de arte” e diz não se preocupar com os processos. “Acho que vou ser preso”, brinca. “Estou absolutamente tranquilo. Faço literatura e vou continuar a fazer. Se eu me preocupasse com isso não escrevia nenhuma linha”.